A ética de Anselmo na obra A Verdade
Gabriel
Heidrich Medeiros Mestrando em filosofia pela UFPEL/ gabriel_heidrich@yahoo.com.br/
53 33421266
A ética de Anselmo na obra A Verdade
Resumo: O presente artigo tem como meta analisar os
temas propriamente éticos que constam na obra A Verdade, de Anselmo de Cantuária. É fato que Anselmo não possui,
propriamente, um texto sobre ética, mas temas da ética estão presentes em seus
tratados de cunho epistemológico. Pretende-se, então, averiguar a existência de
tais temas em A Verdade.
Palavras chave: dever; retidão; verdade; ética; Deus.
Abstract: This article aims to analyze the ethical issues
specifically listed in the book The Truth
of Anselm of Canterbury. Anselmo is a fact that has not properly a work ethics,
but ethical issues are present in their treatises, epistemological. The aim is
then to determine the existence of such themes in the work.
Key
words: Duty, righteousness, truth, ethics and God.
Como se sabe, Anselmo (1033-1109), um
dos maiores pensadores da filosofia medieval, não possui um texto que tenha
como tema propriamente a ética. No entanto, os seus temas estão profundamente
ligados com o conjunto total da sua filosofia. O título A Verdade (1080-1085) pode suscitar ao leitor que ela se trata de
um texto de cunho puramente epistemológico. Apesar disso, a ética é debatida.
As obras Anselmianas devem ser lidas em conjunto, pois as ideias contidas em
uma implicam em ideias contidas em outra. Entretanto , as teses éticas do “Doutor
Magnífico”[1]
contidas neste tratado podem ser lidas separadamente dos seus outros trabalhos,
isso sem deixar de evidenciar o teor ético das proposições de Anselmo contidas
em A verdade.
A
verdade de Santo Anselmo de
Cantuária é escrita sob a forma de um diálogo entre o discípulo e o mestre
(Anselmo) tendo em vista um estudo das sagradas escrituras. Ela se subdivide na
seguinte forma e estrutura: no capítulo I aparecem três questões a serem tratadas
no restante do livro. Nos capítulos II a VII, Anselmo irá esclarecer os
diversos lugares onde se encontra a verdade. Já nos capítulos VIII e IX, o
filosofo irá dar alguns esclarecimentos. Na parte X ele chegará à suma verdade,
e no capítulo XI apresentará a definição da suma verdade. A definição de
justiça irá aparecer no capítulo XII, e no XIII tem-se a conclusão.
No capítulo I aparecem três perguntas.
A primeira questão diz respeito ao texto bíblico de João. O primeiro problema é
posto no diálogo pelo discípulo, e a refere-se à possibilidade da reversão da proposição do texto de João, ou seja,
se pode existir verdade em outras coisas além de Deus. Ela será respondida no
capítulo XIII. A segunda questão é
colocada e respondida parcialmente no mesmo capitulo inicial, fazendo uma
retomada da prova posta no capítulo XVIII do Monologion de Anselmo: Questiona-se se a verdade possui ou não um principio e um fim.
Este questionamento será totalmente sanada somente no capítulo X de
A Verdade. A última pergunta é a da
própria definição da verdade (depois de se ter percorrido todas as suas sedes)
como uma unidade, e só será respondida no capítulo XIII.
A referência ao Monologion no primeiro capítulo é bastante explícita, mas, segundo
Vasconcellos (2003, p. 201), existe um problema no estudo de autores medievais,
incluindo Anselmo, que é o da identificação das suas referências. Os medievais,
primeiramente, não possuíam a chamada “propriedade intelectual”, isto é: seus
escritos eram feitos para o uso comum e com o único propósito de encontrar a
verdade. Assim, não se faziam citações, embora elas estejam presentes de forma
implícita em seus tratados. No caso de Anselmo, uma influencia que é sabida é a
de Agostinho, mas em geral há nos medievais a referência às Sagradas Escrituras.
No primeiro capítulo de A Verdade há
uma menção ao texto bíblico de João: “Diz-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a
Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Assim, temos uma primeira referência da definição
da verdade, ou seja, Deus. Mas vem a questão se a verdade não pode ser
encontrada em suas outras sedes que é um dos problemas que Anselmo irá
investigar no restante do tratado.
A ideia de que a verdade não possui
princípio nem fim, colocada pela segunda questão, decore de uma incapacidade
lógica de que a verdade não seja deste jeito. Isto se dá, primeiramente, por
que: (A) se a verdade teve um princípio, decorre necessariamente que (B) então,
antes que a verdade exista, não havia verdade. Logo, se (A) é verdadeiro, então
a verdade deveria existir no próprio tempo passado, antes da sua existência,
para que seja verdadeira a proposição (B). Assim, excluindo (B) necessariamente
se exclui também (A). O mesmo ocorre no tempo futuro, pois a proposição de que
a verdade possa deixar de existir implica, diretamente, a verdade da proposição
de sua não existência futura, o que é um absurdo lógico. Por isso, a verdade
não possui nem princípio nem fim, ou seja, não possui forma alguma, mas, sendo
assim, como defini-la? Como enclausurá-la em uma proposição? Isso faz parte da
questão aberta pelo discípulo no final do primeiro capítulo da obra.
Contudo, a prova colocada por Anselmo
no Monologion teve que ser enunciada,
o que coloca diretamente a pergunta que se pode fazer: Se a proposição que
enuncia diz que a verdade não possui nem principio e nem fim é ela mesma
idêntica a esta verdade? Como podemos compreender uma “não verdade”, sendo que
ela não existe e o seu pensamento é impossível? Com isso tem-se a necessidade
de se percorrer as várias sedes da verdade, da mais simples à mais complexa.
Faz-se necessário investigar como elas se correlacionam a fim de saber como a
verdade pode ser posta pela enunciação verdadeira. No capítulo II começam os
problemas propriamente destinados à serem resolvidos na obra. Esta
passagem irá enfrentar o problema da verdade
na enunciação. O problema geral é definir a verdade, mas Anselmo começa
partindo do conhecimento mais básico da verdade (que para ele é a da
enunciação) a fim de chegar ao mais complexo, a suma verdade.
Uma enunciação é verdadeira quando,
“afirmando ou negando”, fala das coisas que são, e se ratifica como verdadeira
quando é. A verdade da coisa enunciada não é a verdade da própria enunciação,
mas a causa da verdade do enunciado. Assim, Anselmo faz uma separação entre o
que é dito e a coisa que é dita. A verdade da coisa não influencia a verdade do
enunciado. O verdadeiro deve ser verdade por si mesmo e é o que o discípulo
coloca:
D. — Porque nada é verdadeiro a não ser por participar da verdade; e por
isso a verdade do verdadeiro está no próprio verdadeiro, mas a coisa enunciada
não está na enunciação verdadeira e daí não dever dizer-se que é a sua verdade,
mas a causa da sua verdade. Por essa razão, parece-me que a sua verdade não
deve ser procurada a não ser na própria proposição (ANSELMO, 1984, p.146).
Mas, ficamos em um “beco sem saída”,
se a enunciação deve ter a sua própria verdade, como iremos definir esta
verdade? Tendo a enunciação uma “vida própria”, ela pode dizer o que não é como
se fosse e em sua interioridade ser verdadeira. A solução dada pelo mestre
Anselmo ao discípulo é a de que teria que haver uma noção de dever na coligação
entre o significado e o significante.
M. — Para que se
faz uma afirmação?
D. — Para
significar existir aquilo que existe.
M. — Deve fazer
isso, portanto.
D. — Por certo (ANSELMO, 1984, p. 147).
Ou seja, quando o enunciado se refere
ao que é existente, faz o que deve e assim a enunciação se torna reta. Da mesma
forma, é reta a enunciação quando fala o que não é quando não é. Há um dever
moral nas afirmações enunciativas, pois o agente tem um dever de fazer
algo. Para que a enunciação se torne reta, ele faz algo, e este algo é por
dever. Segundo Costa (2010, p. 43):
Basta que nos
perguntemos “o que é reto?” para que descubramos a razão da passagem do dever à
retidão. O que é reto senão aquilo que o próprio Deus quer, pois “nada é reto
ou conveniente senão o que ele mesmo quer”. Como o dever nada mais é do que o
cumprimento da vontade de Deus, segue-se que se algo faz o que deve também o
faz retamente. Desse modo, quando a proposição significa que é o que é, sua
significação é reta. Desse modo, o Mestre já tem os dois elementos necessários
para reduzir a verdade à retidão: por um lado, quando a enunciação significa
que é o que é, reta é sua significação, por outro lado, quando a enunciação
significa que é o que é, verdadeira é sua significação. “Logo, é o mesmo para
ela ser reta e verdadeira, isto é, significar que é o que é”. Portanto, a
verdade da enunciação é retidão.
Contudo, a enunciação faz o que deve,
mesmo quando não diz o que é ao afirmar o que é quando não é. Existe verdade na
oração falsa, quando ela faz o que deve, que não condiz com o real (para se
tornar reta a ação da oração deve o agente que enuncia dizer o que é); ou seja,
quando a enunciação é significativa. Essa noção é importante, porque quando
Anselmo enuncia que a verdade não possui nem princípio nem fim ele precisa usar
das enunciações “falsas”, de que existe um princípio e um fim para a verdade.
Algo no futuro “que não é a verdade” e algo no passado no mesmo sentido. Isso
porque elas têm de significar algo a fim de serem compreendidas, de forma a se
possibilitar a averiguação de sua falsidade.
Estas enunciações fazem o que devem, pois significam algo. Apenas não atingem o
que é, entretanto são essências na argumentação daquilo que é a verdade para
Anselmo. Assim, o filósofo pode provar a verdade pela oração.
Contudo, ele diz no Monologion que estes pensamentos sequer
podem ser pensados. Mas ele os pensou e compreendeu. Estas verdades dependem da
verdade. Por isso, estas proposições só podem ser verdadeiras, visto que “algo
de futuro” só será verdadeiro se participar da verdade. Para que a enunciação
seja verdadeira, ela tem que participar da verdade e o mesmo vale para o passado.
A suma verdade é a causa destas verdades. Como elas não podem ser pensadas como
não verdadeiras, teria que existir algo no futuro, como um estado de coisas em
que a verdade não exista. Esta proposição, que em sua função significativa é
verdadeira[2],
não poderá ser verdadeira (ontologicamente) sem a verdade que diz que é o que
não é. Mas esta é apenas uma parte do argumento, ou seja, de que algo no futuro
e no passado foi e será verdadeiro, e isto é completamente inteligível na sua
significação. O conteúdo (ontológico) destas proposições se torna
ininteligível, a saber, de que a verdade não existiu ou não existirá, pois
estas enunciações dependem da verdade que negam. Também o mau como não ser pode
ser dito com significado. O mau em si é o nada, o não ser, mas que pode ser
abordado pelo discurso significativo. O temor do mal existe por que ele
significa alguma coisa, a ausência do bem.
O conceito de dever se estende
inclusive ao âmbito da opinião. Ela é um julgamento, e este se torna reto
quando faz o que deve, quando julga o que é quando é. Desta forma, ele torna o
pensamento reto, pois fez o que se deve. Anselmo retoma a questão sobre a
verdade da opinião no capítulo VI, em que trata sobre a verdade dos sentidos. no
capítulo VI, o qual tem por problema a verdade dos sentidos. De acordo com o
discípulo, estes não são inteiramente confiáveis, pois às vezes nos enganam. Anselmo é categórico ao afirmar que os sentidos são
confiáveis. O que nos traz objeções a eles é, segundo o Doutor Magnífico, a
opinião errônea sobre os dados dos sentidos. Assim como, por exemplo, quando
pensamos ver a pessoa X, que, no entanto não é ela de fato. Não é a nossa visão
que nos engana, mas a nossa opinião equivocada.
Outra sede da verdade é a vontade. A
veracidade está presente no âmbito da verdade, porque também se deve querer a
verdade. Anselmo utiliza-se do exemplo do diabo, que estava na verdade, não a
quis. O diabo, não deixou a verdade, ele apenas não a quis. A verdade é a
retidão, inclusive, na vontade, quando esta quer a verdade.
A vontade,
enquanto manifestação da liberdade e da consciência, é, também, poder-se-ia
dizer, pressuposto para o agir reto, mas não necessariamente o agir conforme à
retidão é conseqüência da vontade, porque nem sempre a vontade é expressão do
que deve ser feito. De igual modo, a ação da pessoa humana reflete a
conformidade à verdade, se for, necessariamente, benfazeja. Anselmo demonstra
que a ação malévola é oposta à ação verdadeira e que a verdade da ação é a
própria retidão (ROMIO; HACKMANN, 2008, p. 57).
Contudo, o homem é um ser racional e
possui o livre arbítrio (como capacidade de escolha entre A ou B), e por isso
tudo o que faz é livre e não necessário. A retidão na opinião se deve à boa
deliberação da razão, que leva à opinião ou ao pensamento correto. Quando o
raciocínio é errôneo, ele não chega à retidão. Mesmo que os animais tivessem
razão, o seu agir é necessário, assim a sua racionalidade seria, apenas,
instrumento dos instintos. O homem, para tornar-se reto, deve ter a opinião
correta e deve estar reto na vontade que o faz permanecer na verdade. O animal,
se possuísse razão, poderia chegar à verdade, mas por não ser livre e seguir os
seus instintos não possui a “escolha” de permanecer ou não na verdade. O que
ocorre com o Diabo é que a verdade não o deixou, mas sua própria vontade a
negou. Fica claro que a verdade da vontade é a retidão de permanecer na verdade
e a verdade da opinião é chegar à verdade. Um sujeito constituído apenas de
vontade, poderia ele ser reto? Por exemplo, um animal estaria na verdade? A sua
ação é reta, por que ele faz o que foi programado para fazer, no homem a
exigência é dupla, pois ele é racional e livre, ou seja, a sua opinião e
vontade devem estar retas.
Já a verdade na ação se subdivide em
duas: (A) a ação natural e (B) a ação não natural. (A) diz respeito a elementos
necessários da natureza, como o fogo que aquece, pois assim o quer o criador.
Já (B) diz respeito a ações não necessárias, pois dependem do agente. Agir por
dever torna a ação reta e aí há verdade nesta ação, pois a verdade nada mais é
do que a própria retidão:
Do mesmo modo
que ocorrera com outras “sedes da verdade”, a verdade da ação também será
reduzida à retidão. Pois se agir mal e fazer a verdade são opostos, como
mostram os versículos de são João, fazer a verdade (facere veritatem) é
o mesmo que fazer bem (facere bene). Apesar de fórmulas diferentes,
expressam a mesma significação. Ora, “é opinião de todos que quem faz o que
deve, faz bem e faz a retidão. Donde se segue que fazer a retidão é fazer a
verdade”. Daí, a verdade da ação é retidão (COSTA, 2010, p. 48).
A verdade da ação também é entendida para a retidão no ato da
enunciação. Há verdade por ela mesma na proposição quando ele diz que é quando
não é, mas a verdade da enunciação deve ser posta sobre a verdade das
enunciações das ações do tipo (A), para que se torne reta a ação da enunciação.
Mas nas ações do tipo (B) existe a verdade nas próprias ações, já que a ação
reta é verdadeira. O diabo deixou a verdade, porque “não permaneceu na verdade”
(Jô 8,44) e por isso há a separação da verdade na vontade, pois a verdade é
feita também.
Existe uma conexão entre o verdadeiro e a existência de todas as coisas
no capítulo VII. O falso é tratado, por
Anselmo, como o não ser, pois aquilo que não é não existe. Já o verdadeiro é a
afirmação de tudo aquilo que existe, sendo o que são por dever, e assim é reta
a verdade, porque está na essência das coisas.
M. — Por conseguinte, se todas as coisas são o que são
nela, sem dúvida são o que devem ser.
D. — Verdadeiramente são o que devem ser.
M. — Mas qualquer coisa que é o que deve ser, é
retamente.
D. — Não pode ser de outro modo.
M. — Logo, tudo o que é, é retamente.
D. — Nada mais lógico.
M. — Portanto, se a verdade e a retidão estão na
essência das coisas pela razão de que são o que são na verdade suprema, é certo
que a verdade das coisas é a retidão.
D. — Nada
mais claro quanto à conseqüência da argumentação (ANSELMO, 1984, p.
154).
Tudo que é só é por causa da suma
verdade, pois dependem dela para serem o que são. O que não é, o não ser, não
existe. Assim, tudo o que é está em conformidade com o seu dever, tanto o que
já é, como o que vai ser. Deste modo tudo que é, é por ser reto e assim
participar da suma verdade. Há aqui um elemento único: em Anselmo o conceito de
dever é estendido para as coisas irracionais e inorgânicas, isso quando fazem o
que lhes é devido, ou seja, agir em conformidade com a sua natureza, pois o
quer Deus. Mas nem por isso a sua ação possui mérito, pois o que eles fazem é
necessário. Apenas o Homem, dos seres “fenomênicos”, é livre e capaz de
perceber a retidão, por isso se torna ético. Pode-se averiguar que se o homem
não possuísse o livre arbítrio ele não possuiria o mérito e não seria digno do
reino dos céus, embora fosse mais “fácil” se o homem não possuísse a liberdade
do livre-arbítrio, pois não cairia em tentação do pecado.
No capítulo VIII, sobre os diversos
significados do dever e do não dever, o filósofo apresenta o problema de quando
algo pode ser por dever quando, ao mesmo tempo, não é por dever. Para o Doutor
Magnífico, nada absolutamente existe a não ser que Deus o faça ou o permita.
Tudo o que Deus faz é bom e sábio, mas ele permite a maldade, porque tudo o que
existe, só pode existir com a sua permissão. Dessa forma, aquele que faz o mal
o faz com o consentimento de Deus. Então deve ser e não deve ser. A ação má
deve ser, como no exemplo de Jesus Cristo, que sofreu na cruz porque quis, pois
teve que ser desta forma. O carrasco, que agiu de forma má, só o fez com a
permissão de Deus. Assim a Ação má (o ato todo) foi feita por dever e por não
dever, sendo este último concedido por Deus.
Por exemplo, quando algo é golpeado, o
seu golpeador pode ou não agir por dever. O golpeador, quando, por exemplo, é
um pastor que tira de um “golpe” o pecador do pecado, age por dever. Mas o
mesmo não ocorre com o carrasco de Jesus na cruz, porque ele agiu de forma má,
mas que foi permitida por Deus. Deste modo, a carne do Cristo que foi golpeada
agiu por dever, pois era esta a sua função, contudo o seu golpeador não agiu
por dever, existindo um dever e um não dever na mesma ação. Em suma, o fator
passivo da ação, ao obedecer a sua natureza, faz o que deve mesmo que o agente
ativo tenha propósitos maus, e assim a ação ocorreu por dever e ao mesmo tempo
por não dever, mas que foi permitida por Deus.
Já, no capítulo IX, Anselmo estende e
ratifica a significação de verdade e falsidade para além da enunciação. Como já
havia demonstrado antes, Anselmo entende a verdade também no que é feito na
vontade e na ação. A verdade é estendida para a obra de quem enuncia:
M. — Se
estivesses num lugar onde soubesses que havia ervas saudáveis e mortíferas, mas
não soubesses distingui-las, e se aí estivesse alguém de quem não duvidasses
que as soubesse discernir, e que, ao perguntares quais as saudáveis e quais as
mortíferas, te dissesse com a palavra que umas eram saudáveis e, por outro
lado, comesse das outras, no que acreditarias mais, na sua palavra ou na sua
ação?
D. — Não
acreditaria tanto na palavra quanto na obra.
M. — Portanto,
ele te diria quais fossem as saudáveis mais com a obra do que com a palavra.
D. — Assim é (ANSELMO, 1984, p. 158).
O mentiroso não ganha credibilidade em
sua obra. Torna-se necessário um conjunto de fatores para que a obra seja
verdadeira. É preciso que a enunciação seja verdadeira, que diga que é o que é e
que a vontade do agente que a enuncia seja reta, que queira permanecer na
verdade e que esta vontade deve se estender para a ação, ou seja, que ele deve
fazer efetivamente o que é correto e verdadeiro.
A suma verdade é aquilo que não deve
nada a ninguém, ela é autossuficiente enquanto todo o resto é o que deve ser.
Sendo autossuficiente, a suma verdade é o que é por si mesmo, vive em tempo
eterno e em contínuo presente, o que responde, mais uma vez, à questão colocada
pelo discípulo no capítulo I, de que se a verdade possui princípio ou fim. A
suma verdade, a qual todas as demais são dependentes, não pode ter princípio ou
fim, pois ela não depende de nada.
A verdade é a retidão que observamos
(percebemos) em todas as coisas, tanto feitas quanto enunciadas. Mas, pode-se
levantar a questão, como o discípulo levantou, se a retidão deve ser a mesma
encontrada nos corpos apreendidos pelos sentidos. O que acontece é que esta
retidão é apreendida pelo espírito, pois se a coisa reta não está presente,
pode-se pensar a retidão do objeto. Sendo, a retidão está presente na percepção
que o espírito tem dela. Podemos abrir a objeção de que o homem, por ter sido
feito conforme a imagem de Deus, possui o entendimento necessário para perceber
a retidão de como deve ser a sua ação, fazendo aquilo que Deus quer. Ao contrário
dos animais, que, por exemplo, agem necessariamente, como deve ser o seu
comportamento, pois é a vontade do criador. A retidão é perceptível, pelo espírito
humano, que deve segui-la para possuir mérito moral.
A verdade se identifica com a justiça.
Se alguém conhece o que é a verdade (retidão), mas não a justiça, não conhece a
verdade. Isso porque as duas esferas se implicam. Mas só é justo aquele que conhece
a retidão. Só o homem pode ser justo, pois é ele que conhece a retidão. Uma
pedra não pode ser justa, porque só é justo quem faz o que deve, mas porque
quer o que deve. Com efeito, a justiça está na vontade. Mas não é justo quem
faz o que deve, mas não por que quer. A justiça só é perceptível para quem
percebe a retidão e faz tudo conforme ela, mas também porque a sua vontade quer
que seja assim. Não é justo aquele que age por coação, mas somente aquele que
age conforme a retidão e por ela mesma. A retidão é uma, enquanto há várias
coisas que se encaixam na retidão.
A retidão parece operar como um
imperativo, pois aquele que conhece a retidão, e age em conformidade com ela,
será necessariamente justo. Conhecer a retidão pode ser a forma de se chegar a
justiça. Mas não se esgota em apenas conhecer a justiça, pois é necessário
fazer a justiça:
M. — Por essa razão não se diz que a pedra é justa,
porque não é justo quem faz o que deve, se não quer o que faz.
D. — Diremos, então, que o cavalo é justo quando quer pastar porque,
querendo, faz o que deve?
M. — Eu não disse que justo é aquele que faz, querendo,
o que deve; mas afirmei que não é justo quem não faz, querendo, o que deve.
D. — Dize-me, então, quem é justo.
M. — Procuras, como vejo, uma definição de justiça à
qual se deve louvor, assim como ao contrário dela, isto é, à injustiça, se deve
a repreensão.
D. — É essa mesmo que busco (ANSELMO, 1984, p. 162).
Os animais fazem o que devem, por isso
o seu querer é reto. Mas nesse caso, não há liberdade. É necessário, então,
querer aquilo que Deus quer que se queira, o que é uma capacidade humana por
causa da sua liberdade. O homem deve reconhecer e querer a retidão, que é ação
também. Somente, a ação é justa conforme o preceito universal da retidão, pois inclui
a vontade do sujeito, como o conhecimento dele. Um cavalo é reto, pois ele quer
o que Deus quer. Contudo, não possui o querer e o conhecer daquilo que Deus
quer que ele queira, a sua ação é necessária e sem justiça.
Bibliografia
ANSELMO
de Cantuária. A verdade. Tradução de
Angelo Ricci. São Paulo: Abril S.A. Cultural, 1984. p.141-169 (Os Pensadores).
BÍBLIA
Sagrada. Tradução dos textos originais, com notas, dirigida pelo Pontifício
Instituto Bíblico de Roma. São Paulo: Paulinas, 1976.
COSTA,
L. R. Sobre a verdade em Anselmo de
Cantuária. 2010. 139 f .
Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
PICH,
Roberto Hofmeister. Anselmo de Cantuária sobre a verdade do pensamento. Dissertatio [30], 93 – 133 verão de
2009.
ROMIO,
J.; HACKMANN, G. L. B. Fé, razão e verdade: a contribuição de Anselmo de
Cantuária. Telecomunicação, Porto
Alegre, v. 38, n. 159, p. 47-63, jan./abr. 2008. p.57.
VASCOCELLOS,
Manoel. A sagrada escritura na obra de Anselmo de Aosta. In: Oliveira, Avelino
da Rosa; Oliveira, Neiva Afonso (Org.). Fides
et Ratio: Festschrift em homenagem a Cláudio Neutzling. Pelotas: EDUCAT,
2003. p.201-210.
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