sexta-feira, 11 de dezembro de 2015







A ética de Anselmo na obra A Verdade









Gabriel Heidrich Medeiros Mestrando em filosofia pela UFPEL/ gabriel_heidrich@yahoo.com.br/ 53 33421266





















 

 

 

A ética de Anselmo na obra A Verdade



Resumo: O presente artigo tem como meta analisar os temas propriamente éticos que constam na obra A Verdade, de Anselmo de Cantuária. É fato que Anselmo não possui, propriamente, um texto sobre ética, mas temas da ética estão presentes em seus tratados de cunho epistemológico. Pretende-se, então, averiguar a existência de tais temas em A Verdade.
Palavras chave: dever; retidão; verdade; ética; Deus.

Abstract: This article aims to analyze the ethical issues specifically listed in the book The Truth of Anselm of Canterbury. Anselmo is a fact that has not properly a work ethics, but ethical issues are present in their treatises, epistemological. The aim is then to determine the existence of such themes in the work.
Key words: Duty, righteousness, truth, ethics and God.

Como se sabe, Anselmo (1033-1109), um dos maiores pensadores da filosofia medieval, não possui um texto que tenha como tema propriamente a ética. No entanto, os seus temas estão profundamente ligados com o conjunto total da sua filosofia. O título A Verdade (1080-1085) pode suscitar ao leitor que ela se trata de um texto de cunho puramente epistemológico. Apesar disso, a ética é debatida. As obras Anselmianas devem ser lidas em conjunto, pois as ideias contidas em uma implicam em ideias contidas em outra. Entretanto, as teses éticas do “Doutor Magnífico”[1] contidas neste tratado podem ser lidas separadamente dos seus outros trabalhos, isso sem deixar de evidenciar o teor ético das proposições de Anselmo contidas em A verdade.
A verdade de Santo Anselmo de Cantuária é escrita sob a forma de um diálogo entre o discípulo e o mestre (Anselmo) tendo em vista um estudo das sagradas escrituras. Ela se subdivide na seguinte forma e estrutura: no capítulo I aparecem três questões a serem tratadas no restante do livro. Nos capítulos II a VII, Anselmo irá esclarecer os diversos lugares onde se encontra a verdade. Já nos capítulos VIII e IX, o filosofo irá dar alguns esclarecimentos. Na parte X ele chegará à suma verdade, e no capítulo XI apresentará a definição da suma verdade. A definição de justiça irá aparecer no capítulo XII, e no XIII tem-se a conclusão.
No capítulo I aparecem três perguntas. A primeira questão diz respeito ao texto bíblico de João. O primeiro problema é posto no diálogo pelo discípulo, e a refere-se à possibilidade da reversão da proposição do texto de João, ou seja, se pode existir verdade em outras coisas além de Deus. Ela será respondida no capítulo XIII. A segunda questão é colocada e respondida parcialmente no mesmo capitulo inicial, fazendo uma retomada da prova posta no capítulo XVIII do Monologion de Anselmo: Questiona-se se a verdade possui ou não um principio e um fim. Este questionamento será totalmente sanada somente no capítulo X de A Verdade. A última pergunta é a da própria definição da verdade (depois de se ter percorrido todas as suas sedes) como uma unidade, e só será respondida no capítulo XIII.
A referência ao Monologion no primeiro capítulo é bastante explícita, mas, segundo Vasconcellos (2003, p. 201), existe um problema no estudo de autores medievais, incluindo Anselmo, que é o da identificação das suas referências. Os medievais, primeiramente, não possuíam a chamada “propriedade intelectual”, isto é: seus escritos eram feitos para o uso comum e com o único propósito de encontrar a verdade. Assim, não se faziam citações, embora elas estejam presentes de forma implícita em seus tratados. No caso de Anselmo, uma influencia que é sabida é a de Agostinho, mas em geral há nos medievais a referência às Sagradas Escrituras. No primeiro capítulo de A Verdade há uma menção ao texto bíblico de João: “Diz-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Assim, temos uma primeira referência da definição da verdade, ou seja, Deus. Mas vem a questão se a verdade não pode ser encontrada em suas outras sedes que é um dos problemas que Anselmo irá investigar no restante do tratado.
A ideia de que a verdade não possui princípio nem fim, colocada pela segunda questão, decore de uma incapacidade lógica de que a verdade não seja deste jeito. Isto se dá, primeiramente, por que: (A) se a verdade teve um princípio, decorre necessariamente que (B) então, antes que a verdade exista, não havia verdade. Logo, se (A) é verdadeiro, então a verdade deveria existir no próprio tempo passado, antes da sua existência, para que seja verdadeira a proposição (B). Assim, excluindo (B) necessariamente se exclui também (A). O mesmo ocorre no tempo futuro, pois a proposição de que a verdade possa deixar de existir implica, diretamente, a verdade da proposição de sua não existência futura, o que é um absurdo lógico. Por isso, a verdade não possui nem princípio nem fim, ou seja, não possui forma alguma, mas, sendo assim, como defini-la? Como enclausurá-la em uma proposição? Isso faz parte da questão aberta pelo discípulo no final do primeiro capítulo da obra.
Contudo, a prova colocada por Anselmo no Monologion teve que ser enunciada, o que coloca diretamente a pergunta que se pode fazer: Se a proposição que enuncia diz que a verdade não possui nem principio e nem fim é ela mesma idêntica a esta verdade? Como podemos compreender uma “não verdade”, sendo que ela não existe e o seu pensamento é impossível? Com isso tem-se a necessidade de se percorrer as várias sedes da verdade, da mais simples à mais complexa. Faz-se necessário investigar como elas se correlacionam a fim de saber como a verdade pode ser posta pela enunciação verdadeira. No capítulo II começam os problemas propriamente destinados à serem resolvidos na obra. Esta passagem irá enfrentar o problema da verdade na enunciação. O problema geral é definir a verdade, mas Anselmo começa partindo do conhecimento mais básico da verdade (que para ele é a da enunciação) a fim de chegar ao mais complexo, a suma verdade.
Uma enunciação é verdadeira quando, “afirmando ou negando”, fala das coisas que são, e se ratifica como verdadeira quando é. A verdade da coisa enunciada não é a verdade da própria enunciação, mas a causa da verdade do enunciado. Assim, Anselmo faz uma separação entre o que é dito e a coisa que é dita. A verdade da coisa não influencia a verdade do enunciado. O verdadeiro deve ser verdade por si mesmo e é o que o discípulo coloca:

D. — Porque nada é verdadeiro a não ser por participar da verdade; e por isso a verdade do verdadeiro está no próprio verdadeiro, mas a coisa enunciada não está na enunciação verdadeira e daí não dever dizer-se que é a sua verdade, mas a causa da sua verdade. Por essa razão, parece-me que a sua verdade não deve ser procurada a não ser na própria proposição (ANSELMO, 1984, p.146).

Mas, ficamos em um “beco sem saída”, se a enunciação deve ter a sua própria verdade, como iremos definir esta verdade? Tendo a enunciação uma “vida própria”, ela pode dizer o que não é como se fosse e em sua interioridade ser verdadeira. A solução dada pelo mestre Anselmo ao discípulo é a de que teria que haver uma noção de dever na coligação entre o significado e o significante.

M. — Para que se faz uma afirmação?
D. — Para significar existir aquilo que existe.
M. — Deve fazer isso, portanto.
D. — Por certo (ANSELMO, 1984, p. 147).

Ou seja, quando o enunciado se refere ao que é existente, faz o que deve e assim a enunciação se torna reta. Da mesma forma, é reta a enunciação quando fala o que não é quando não é. Há um dever moral nas afirmações enunciativas, pois o agente tem um dever de fazer algo. Para que a enunciação se torne reta, ele faz algo, e este algo é por dever. Segundo Costa (2010, p. 43):

Basta que nos perguntemos “o que é reto?” para que descubramos a razão da passagem do dever à retidão. O que é reto senão aquilo que o próprio Deus quer, pois “nada é reto ou conveniente senão o que ele mesmo quer”. Como o dever nada mais é do que o cumprimento da vontade de Deus, segue-se que se algo faz o que deve também o faz retamente. Desse modo, quando a proposição significa que é o que é, sua significação é reta. Desse modo, o Mestre já tem os dois elementos necessários para reduzir a verdade à retidão: por um lado, quando a enunciação significa que é o que é, reta é sua significação, por outro lado, quando a enunciação significa que é o que é, verdadeira é sua significação. “Logo, é o mesmo para ela ser reta e verdadeira, isto é, significar que é o que é”. Portanto, a verdade da enunciação é retidão.

Contudo, a enunciação faz o que deve, mesmo quando não diz o que é ao afirmar o que é quando não é. Existe verdade na oração falsa, quando ela faz o que deve, que não condiz com o real (para se tornar reta a ação da oração deve o agente que enuncia dizer o que é); ou seja, quando a enunciação é significativa. Essa noção é importante, porque quando Anselmo enuncia que a verdade não possui nem princípio nem fim ele precisa usar das enunciações “falsas”, de que existe um princípio e um fim para a verdade. Algo no futuro “que não é a verdade” e algo no passado no mesmo sentido. Isso porque elas têm de significar algo a fim de serem compreendidas, de forma a se possibilitar a averiguação de sua falsidade. Estas enunciações fazem o que devem, pois significam algo. Apenas não atingem o que é, entretanto são essências na argumentação daquilo que é a verdade para Anselmo. Assim, o filósofo pode provar a verdade pela oração.
Contudo, ele diz no Monologion que estes pensamentos sequer podem ser pensados. Mas ele os pensou e compreendeu. Estas verdades dependem da verdade. Por isso, estas proposições só podem ser verdadeiras, visto que “algo de futuro” só será verdadeiro se participar da verdade. Para que a enunciação seja verdadeira, ela tem que participar da verdade e o mesmo vale para o passado. A suma verdade é a causa destas verdades. Como elas não podem ser pensadas como não verdadeiras, teria que existir algo no futuro, como um estado de coisas em que a verdade não exista. Esta proposição, que em sua função significativa é verdadeira[2], não poderá ser verdadeira (ontologicamente) sem a verdade que diz que é o que não é. Mas esta é apenas uma parte do argumento, ou seja, de que algo no futuro e no passado foi e será verdadeiro, e isto é completamente inteligível na sua significação. O conteúdo (ontológico) destas proposições se torna ininteligível, a saber, de que a verdade não existiu ou não existirá, pois estas enunciações dependem da verdade que negam. Também o mau como não ser pode ser dito com significado. O mau em si é o nada, o não ser, mas que pode ser abordado pelo discurso significativo. O temor do mal existe por que ele significa alguma coisa, a ausência do bem.
Em A Verdade tem-se claro a noção que perpassa de dever, assim como o de retidão, tão caro à filosofia de Anselmo. O conceito de retidão é encontrado também nas obras anselmianas De libertate arbitrii (1080-1085) e De casu diaboli (1085-1090). No caso de A Verdade Mesmo sendo uma obra lógica e epistemológica, há o dever que o agente possui de dizer a verdade, estendendo assim a verdade da proposição para, também, a verdade do ato de quem enuncia.   
O conceito de dever se estende inclusive ao âmbito da opinião. Ela é um julgamento, e este se torna reto quando faz o que deve, quando julga o que é quando é. Desta forma, ele torna o pensamento reto, pois fez o que se deve. Anselmo retoma a questão sobre a verdade da opinião no capítulo VI, em que trata sobre a verdade dos sentidos. no capítulo VI, o qual tem por problema a verdade dos sentidos. De acordo com o discípulo, estes não são inteiramente confiáveis, pois às vezes nos enganam. Anselmo é categórico ao afirmar que os sentidos são confiáveis. O que nos traz objeções a eles é, segundo o Doutor Magnífico, a opinião errônea sobre os dados dos sentidos. Assim como, por exemplo, quando pensamos ver a pessoa X, que, no entanto não é ela de fato. Não é a nossa visão que nos engana, mas a nossa opinião equivocada.
Outra sede da verdade é a vontade. A veracidade está presente no âmbito da verdade, porque também se deve querer a verdade. Anselmo utiliza-se do exemplo do diabo, que estava na verdade, não a quis. O diabo, não deixou a verdade, ele apenas não a quis. A verdade é a retidão, inclusive, na vontade, quando esta quer a verdade.

A vontade, enquanto manifestação da liberdade e da consciência, é, também, poder-se-ia dizer, pressuposto para o agir reto, mas não necessariamente o agir conforme à retidão é conseqüência da vontade, porque nem sempre a vontade é expressão do que deve ser feito. De igual modo, a ação da pessoa humana reflete a conformidade à verdade, se for, necessariamente, benfazeja. Anselmo demonstra que a ação malévola é oposta à ação verdadeira e que a verdade da ação é a própria retidão (ROMIO; HACKMANN, 2008, p. 57).

Contudo, o homem é um ser racional e possui o livre arbítrio (como capacidade de escolha entre A ou B), e por isso tudo o que faz é livre e não necessário. A retidão na opinião se deve à boa deliberação da razão, que leva à opinião ou ao pensamento correto. Quando o raciocínio é errôneo, ele não chega à retidão. Mesmo que os animais tivessem razão, o seu agir é necessário, assim a sua racionalidade seria, apenas, instrumento dos instintos. O homem, para tornar-se reto, deve ter a opinião correta e deve estar reto na vontade que o faz permanecer na verdade. O animal, se possuísse razão, poderia chegar à verdade, mas por não ser livre e seguir os seus instintos não possui a “escolha” de permanecer ou não na verdade. O que ocorre com o Diabo é que a verdade não o deixou, mas sua própria vontade a negou. Fica claro que a verdade da vontade é a retidão de permanecer na verdade e a verdade da opinião é chegar à verdade. Um sujeito constituído apenas de vontade, poderia ele ser reto? Por exemplo, um animal estaria na verdade? A sua ação é reta, por que ele faz o que foi programado para fazer, no homem a exigência é dupla, pois ele é racional e livre, ou seja, a sua opinião e vontade devem estar retas.        
Já a verdade na ação se subdivide em duas: (A) a ação natural e (B) a ação não natural. (A) diz respeito a elementos necessários da natureza, como o fogo que aquece, pois assim o quer o criador. Já (B) diz respeito a ações não necessárias, pois dependem do agente. Agir por dever torna a ação reta e aí há verdade nesta ação, pois a verdade nada mais é do que a própria retidão:

Do mesmo modo que ocorrera com outras “sedes da verdade”, a verdade da ação também será reduzida à retidão. Pois se agir mal e fazer a verdade são opostos, como mostram os versículos de são João, fazer a verdade (facere veritatem) é o mesmo que fazer bem (facere bene). Apesar de fórmulas diferentes, expressam a mesma significação. Ora, “é opinião de todos que quem faz o que deve, faz bem e faz a retidão. Donde se segue que fazer a retidão é fazer a verdade”. Daí, a verdade da ação é retidão (COSTA, 2010, p. 48).

A verdade da ação também é entendida para a retidão no ato da enunciação. Há verdade por ela mesma na proposição quando ele diz que é quando não é, mas a verdade da enunciação deve ser posta sobre a verdade das enunciações das ações do tipo (A), para que se torne reta a ação da enunciação. Mas nas ações do tipo (B) existe a verdade nas próprias ações, já que a ação reta é verdadeira. O diabo deixou a verdade, porque “não permaneceu na verdade” (Jô 8,44) e por isso há a separação da verdade na vontade, pois a verdade é feita também.
Existe uma conexão entre o verdadeiro e a existência de todas as coisas no capítulo VII.  O falso é tratado, por Anselmo, como o não ser, pois aquilo que não é não existe. Já o verdadeiro é a afirmação de tudo aquilo que existe, sendo o que são por dever, e assim é reta a verdade, porque está na essência das coisas.

M. — Por conseguinte, se todas as coisas são o que são nela, sem dúvida são o que devem ser.
D. — Verdadeiramente são o que devem ser.
M. — Mas qualquer coisa que é o que deve ser, é retamente.
D. — Não pode ser de outro modo.
M. — Logo, tudo o que é, é retamente.
D. — Nada mais lógico.
M. — Portanto, se a verdade e a retidão estão na essência das coisas pela razão de que são o que são na verdade suprema, é certo que a verdade das coisas é a retidão.
D. — Nada mais claro quanto à conseqüência da argumentação (ANSELMO, 1984, p. 154).

Tudo que é só é por causa da suma verdade, pois dependem dela para serem o que são. O que não é, o não ser, não existe. Assim, tudo o que é está em conformidade com o seu dever, tanto o que já é, como o que vai ser. Deste modo tudo que é, é por ser reto e assim participar da suma verdade. Há aqui um elemento único: em Anselmo o conceito de dever é estendido para as coisas irracionais e inorgânicas, isso quando fazem o que lhes é devido, ou seja, agir em conformidade com a sua natureza, pois o quer Deus. Mas nem por isso a sua ação possui mérito, pois o que eles fazem é necessário. Apenas o Homem, dos seres “fenomênicos”, é livre e capaz de perceber a retidão, por isso se torna ético. Pode-se averiguar que se o homem não possuísse o livre arbítrio ele não possuiria o mérito e não seria digno do reino dos céus, embora fosse mais “fácil” se o homem não possuísse a liberdade do livre-arbítrio, pois não cairia em tentação do pecado. 
No capítulo VIII, sobre os diversos significados do dever e do não dever, o filósofo apresenta o problema de quando algo pode ser por dever quando, ao mesmo tempo, não é por dever. Para o Doutor Magnífico, nada absolutamente existe a não ser que Deus o faça ou o permita. Tudo o que Deus faz é bom e sábio, mas ele permite a maldade, porque tudo o que existe, só pode existir com a sua permissão. Dessa forma, aquele que faz o mal o faz com o consentimento de Deus. Então deve ser e não deve ser. A ação má deve ser, como no exemplo de Jesus Cristo, que sofreu na cruz porque quis, pois teve que ser desta forma. O carrasco, que agiu de forma má, só o fez com a permissão de Deus. Assim a Ação má (o ato todo) foi feita por dever e por não dever, sendo este último concedido por Deus.
Por exemplo, quando algo é golpeado, o seu golpeador pode ou não agir por dever. O golpeador, quando, por exemplo, é um pastor que tira de um “golpe” o pecador do pecado, age por dever. Mas o mesmo não ocorre com o carrasco de Jesus na cruz, porque ele agiu de forma má, mas que foi permitida por Deus. Deste modo, a carne do Cristo que foi golpeada agiu por dever, pois era esta a sua função, contudo o seu golpeador não agiu por dever, existindo um dever e um não dever na mesma ação. Em suma, o fator passivo da ação, ao obedecer a sua natureza, faz o que deve mesmo que o agente ativo tenha propósitos maus, e assim a ação ocorreu por dever e ao mesmo tempo por não dever, mas que foi permitida por Deus.
Já, no capítulo IX, Anselmo estende e ratifica a significação de verdade e falsidade para além da enunciação. Como já havia demonstrado antes, Anselmo entende a verdade também no que é feito na vontade e na ação. A verdade é estendida para a obra de quem enuncia:

M. — Se estivesses num lugar onde soubesses que havia ervas saudáveis e mortíferas, mas não soubesses distingui-las, e se aí estivesse alguém de quem não duvidasses que as soubesse discernir, e que, ao perguntares quais as saudáveis e quais as mortíferas, te dissesse com a palavra que umas eram saudáveis e, por outro lado, comesse das outras, no que acreditarias mais, na sua palavra ou na sua ação?
D. — Não acreditaria tanto na palavra quanto na obra.
M. — Portanto, ele te diria quais fossem as saudáveis mais com a obra do que com a palavra.
D. — Assim é (ANSELMO, 1984, p. 158).

O mentiroso não ganha credibilidade em sua obra. Torna-se necessário um conjunto de fatores para que a obra seja verdadeira. É preciso que a enunciação seja verdadeira, que diga que é o que é e que a vontade do agente que a enuncia seja reta, que queira permanecer na verdade e que esta vontade deve se estender para a ação, ou seja, que ele deve fazer efetivamente o que é correto e verdadeiro.
A suma verdade é aquilo que não deve nada a ninguém, ela é autossuficiente enquanto todo o resto é o que deve ser. Sendo autossuficiente, a suma verdade é o que é por si mesmo, vive em tempo eterno e em contínuo presente, o que responde, mais uma vez, à questão colocada pelo discípulo no capítulo I, de que se a verdade possui princípio ou fim. A suma verdade, a qual todas as demais são dependentes, não pode ter princípio ou fim, pois ela não depende de nada.
A verdade é a retidão que observamos (percebemos) em todas as coisas, tanto feitas quanto enunciadas. Mas, pode-se levantar a questão, como o discípulo levantou, se a retidão deve ser a mesma encontrada nos corpos apreendidos pelos sentidos. O que acontece é que esta retidão é apreendida pelo espírito, pois se a coisa reta não está presente, pode-se pensar a retidão do objeto. Sendo, a retidão está presente na percepção que o espírito tem dela. Podemos abrir a objeção de que o homem, por ter sido feito conforme a imagem de Deus, possui o entendimento necessário para perceber a retidão de como deve ser a sua ação, fazendo aquilo que Deus quer. Ao contrário dos animais, que, por exemplo, agem necessariamente, como deve ser o seu comportamento, pois é a vontade do criador. A retidão é perceptível, pelo espírito humano, que deve segui-la para possuir mérito moral.
A verdade se identifica com a justiça. Se alguém conhece o que é a verdade (retidão), mas não a justiça, não conhece a verdade. Isso porque as duas esferas se implicam. Mas só é justo aquele que conhece a retidão. Só o homem pode ser justo, pois é ele que conhece a retidão. Uma pedra não pode ser justa, porque só é justo quem faz o que deve, mas porque quer o que deve. Com efeito, a justiça está na vontade. Mas não é justo quem faz o que deve, mas não por que quer. A justiça só é perceptível para quem percebe a retidão e faz tudo conforme ela, mas também porque a sua vontade quer que seja assim. Não é justo aquele que age por coação, mas somente aquele que age conforme a retidão e por ela mesma. A retidão é uma, enquanto há várias coisas que se encaixam na retidão.
A retidão parece operar como um imperativo, pois aquele que conhece a retidão, e age em conformidade com ela, será necessariamente justo. Conhecer a retidão pode ser a forma de se chegar a justiça. Mas não se esgota em apenas conhecer a justiça, pois é necessário fazer a justiça:

M. — Por essa razão não se diz que a pedra é justa, porque não é justo quem faz o que deve, se não quer o que faz.
D. — Diremos, então, que o cavalo é justo quando quer pastar porque, querendo, faz o que deve?
M. — Eu não disse que justo é aquele que faz, querendo, o que deve; mas afirmei que não é justo quem não faz, querendo, o que deve.
D. — Dize-me, então, quem é justo.
M. — Procuras, como vejo, uma definição de justiça à qual se deve louvor, assim como ao contrário dela, isto é, à injustiça, se deve a repreensão.
D. — É essa mesmo que busco (ANSELMO, 1984, p. 162).

Os animais fazem o que devem, por isso o seu querer é reto. Mas nesse caso, não há liberdade. É necessário, então, querer aquilo que Deus quer que se queira, o que é uma capacidade humana por causa da sua liberdade. O homem deve reconhecer e querer a retidão, que é ação também. Somente, a ação é justa conforme o preceito universal da retidão, pois inclui a vontade do sujeito, como o conhecimento dele. Um cavalo é reto, pois ele quer o que Deus quer. Contudo, não possui o querer e o conhecer daquilo que Deus quer que ele queira, a sua ação é necessária e sem justiça.

Bibliografia


ANSELMO de Cantuária. A verdade. Tradução de Angelo Ricci. São Paulo: Abril S.A. Cultural, 1984. p.141-169 (Os Pensadores).
BÍBLIA Sagrada. Tradução dos textos originais, com notas, dirigida pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. São Paulo: Paulinas, 1976.
COSTA, L. R. Sobre a verdade em Anselmo de Cantuária. 2010. 139 f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
PICH, Roberto Hofmeister. Anselmo de Cantuária sobre a verdade do pensamento. Dissertatio [30], 93 – 133 verão de 2009.
ROMIO, J.; HACKMANN, G. L. B. Fé, razão e verdade: a contribuição de Anselmo de Cantuária. Telecomunicação, Porto Alegre, v. 38, n. 159, p. 47-63, jan./abr. 2008. p.57.
VASCOCELLOS, Manoel. A sagrada escritura na obra de Anselmo de Aosta. In: Oliveira, Avelino da Rosa; Oliveira, Neiva Afonso (Org.). Fides et Ratio: Festschrift em homenagem a Cláudio Neutzling. Pelotas: EDUCAT, 2003. p.201-210.



[1] Anselmo de Cantuária.
[2]No que tange a “algo no futuro” e algo no passado, não em que a verdade não existiu, ou não existira.

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