sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A educação em Schopenhauer

Schopenhauer e a educação

Ressumo: O artigo possui a proposta de abordar o tema da educação em Schopenhauer. Levamos em conta as noções de educação natural e artificial do autor. A primeira conforme o mesmo é entendida como autônoma e direta baseia-se nas experiências diretas do educando, sem levar em conta a capacidade abstrativa de pensamento racional. Já a segunda refere-se a uma forma de conhecimento realizado por intervenção, onde o individuo é instigado a memorização de conceitos já prontos e acabados. Queremos com isso apontar para as considerações que o filósofo realiza sobre estes tipos de educação e como as mesmas podem interagir.

Palavras chave:  Educação, Schopenhauer, intuição, artificialidade e filosofia

Summary: The article has the proposal to address the issue of education in Schopenhauer. We take into account the natural and artificial notions of education of the author. The first as it is understood as an autonomous and direct based on the direct experience of the student, without regard to the abstractive ability to rational thinking. The second refers to a form of knowledge held by intervention where the individual is urged to memorize ready and finished concepts. We want it pointing to the considerations that the philosopher performs on these types of education and how they can interact.

Keywords: Education, Schopenhauer, intuition, artificiality and philosophy

O que se pode falar sobre a educação em Schpenhauer (1788 – 1860)? Diferente de outros filósofos, como Rousseau, Kant e Comenius que possuem obras inteiras destinadas ao assunto, Schopenahuer escreveu apenas um pequeno capitulo de Parerga e paraliponema onde analisa o tema. No entanto ao lermos o capitulo intitulado ‘Sobre a educação’ o filósofo nos surpreende com uma rica compreensão do tema que parece antecipar a reflexão sobre a educação expressada no século XX.
            O capítulo Sobre a educação está presente em uma obra do autor que é compreendida pelos seus comentadores como um complemento ao O mundo como vontade e como representação obra principal do filósofo. Conforme boa parte dos comentadores de Schopenhauer, o filósofo possui um pensamento único[1] manifestado em sua obra mestra. Isso significa que o que há de essencial na filosofia de Schopenhauer esta presente na referida obra. Sendo assim as obras anteriores[2] ao livro citado são entendidas como uma introdução ao livro sendo as posteriores, um complemento. Deste modo as considerações do autor sobre a educação são uma consequência lógica daquilo que é exposto em sua obra principal. Torna-se então imperativo que abordemos sobre alguns tópicos de o mundo como vontade e representação antes de abordarmos o assunto da educação.
            A obra aponta para a divisão fundamental do mundo[3] em Vontade[4] e representação[5]. Tudo o que pode ser representado é limitado pela minha capacidade de entendimento[6]. Para Kant as essências não podem ser conhecidas, o que Schopenhauer discorda, pois para ele a essência do mundo a Vontade pode ser conhecida por meio de uma intuição, que difere da intelectiva, pois não está presa aos limites da razão[7]. Schopenhauer privilegia mais as intuições diretas que adquirimos do mundo do que o conhecimento formulado, por meio de uma racionalidade abstrata, pois a primeira dirige-se para um conhecimento mais direto da essência do mundo.
Tendo claro estas informações preliminares podemos começar a analisar o capitulo sobre a educação. No parágrafo 372 o filosofo realiza uma diferenciação entre a educação natural e a artificial. A primeira é entendida como aquela em que o sujeito apreende sozinho onde o conhecimento abstrato forma-se em um segundo momento. Primeiramente o sujeito vivencia intuições diretas do mundo, para só depois formar abstrações (conceitos) gerais sobre estas intuições. Assim o conhecimento que ele possui destes conceitos é total, pois é a totalidade de todas as intuições que ele vivenciou, “amaradas” pelo próprio. Esta forma de ensino “autodidata” instiga a reflexão e a solução de problemas, uma vez que estes são impostos ao sujeito que não possui nenhum auxilio externo. Ele precisa então solucionar, abstrair, juntando as suas intuições para solucionar o problema.
As intuições são consideradas pelo autor como muito mais fortes e importantes[8] do que os conceitos formados pela abstração. Isso por que é através de uma intuição imediata que se tem acesso a coisa em si do mundo a Vontade. Desta maneira o conhecimento intuitivo é mais real, pois possui uma conexão imediata com a essência do mundo. Algo que não é produzido pelo conhecimento abstrato, que nada mais é do que representações de representações, sendo então duplamente ilusório. A representação abstrata é importante, principalmente para o conhecimento pragmático do mundo. Mas querendo que o educando atinja uma educação ampla é necessária que aja um acompanhamento no seu desenvolvimento abstrativo, dando ênfase a este em apenas alguns momentos. Para Schopenhauer em um primeiro momento deve se dar ênfase ao conhecimento natural, não pode-se iniciar com o efeito.
A educação artificial que é definida pelo autor como obliquo, pois trata-se de uma intervenção onde o educando recebe conceitos abstratos prontos, onde não há ligações diretas com intuições vivenciadas pelo mesmo e não há o estimulo a reflexão e solução de problemas, esta forma de educação conforme o filósofo forma pessoas ingênuas e incapacitadas de encarrar o mundo, pois os conceitos abstratos muitas vezes não se aplicam ao mundo real (SCHOPENHAUER, 2013, p. 639-640). [G1] 
A educação deve tender ao mundo e não aos conceitos[9]. Os últimos só devem ser formados em conseguencia das intuições. Para isso é necessário pensar uma maneira, uma estratégia para educar. Deste de já esta maneira da muito mais ênfase a qualidade e não na quantidade de conhecimentos. Uma vez que prover com que o educando espontaneamente tenha e reflita sobre as suas vivencias trata-se um processo muito mais lento, do que a educação que dá ênfase para o conhecimento abstrato onde tudo já esta pronto. Devemos tentar entender qual seria então a sequencia natural de conhecimentos ao qual uma criança deve apreender. A criança ao possuir apenas alguns conceitos, mas claros e distintos acostuma-se a claridade, a verdade e não se deixa enganar facilmente por ilusões, que tentam forçar que a realidade se enquadre nestas ilusões (SCHOPENHAUER, 2013, p. 641-642).
No entanto o conhecimento abstrato possui o seu papel em todos os momentos na ideia de educação em Schopenhauer. Para o autor o primeiro contato com o conhecimento abstrato deve ser de memorização e não de reflexão. O educando não possui ainda uma capacidade reflexiva abstrata própria. Forçar o educando a tais reflexões seria danoso para o mesmo, pois ele chegaria a conclusões que ele mesmo não compreende. Tornando-se assim ingênuos por esperar que as suas conclusões abstratas devam sempre ser ratificadas na experiência. Para o filosofo conhecimentos abstratos mais complexos só podem ser inseridos após os dezesseis anos de idade. A criança deve se ocupar apenas de ciências concretas onde não há erros, como a matemática. Aos poucos ela deve ascender a formas de conhecimento abstratas mais reflexivas, como a filosofia por exemplo. Formas estas que dependem de uma razão mais apurada, que por um lado necessitam de um conhecimento fortemente enraizado no mundo, para que não seja uma mera abstração do mesmo, como também precisa da capacidade abstrativa para o seu exercício.
Para Schoepnhauer a juventude é o momento (na educação artificial) onde deve-se trabalhar principalmente a memoria, pois esta é mais viva e esta em desenvolvimento. Contudo o docente deve selecionar o que deve ser memorizado. Que são apenas aqueles conhecimentos abstratos exatos. Este é o papel da educação abstrativa na juventude. Por outro lado a educação natural e autônoma possui o seu papel pragmático.
Chegando as considerações finais, a maturidade intelectual ocorre conforme o filósofo quando o educando desenvolve as suas capacidades naturais (educação natural) em plena harmonia com o seu desenvolvimento abstrativo (educação artificial). Desta maneira ambas se corrigem. É neste momento que a reflexão abstrata mais complexa ganha o seu espaço. Ele não torna-se cego, pois possui a razão para orienta-lo. A razão afasta a ideia de que as suas intuições imediatas são sempre absolutas, ela ‘abre caminho para novas possibilidades’. O educando deste modo também não torna-se ingênuo, pois não espera que as suas reflexões sempre se enquadrem na realidade. 

Bibliografia

BARBOZA, Jair. A decifração do enigma do mundo, São Paulo: Editora moderna, 1997.
LEFRANC, Jean. Compreender Schopenhauer. Petrópolis: Vozes, 2005.
ROGER, Alain. Vocabulário de Schopenhauer. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

SAFRANSKI, Rüdiger, Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. São Paulo: Geração editorial, 2012.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. São Paulo: UNESP, 2005;
_______. Diarios de Viaje. Madrid: Trotta, 2012;
_______. Parerga y paralipómena II. Madrid: Trotta, 2013.


[1]          Com a ideia de um pensamento único estamos expressando a reflexão de que há um elemento chave que desdobra todo o pensamento do autor. Segundo Roger “Essa chave nada mais é senão a célebre distinção kantiana entre o fenômeno e a coisa em si é agora determinada como ‘Vontade’, uma universal, indestrutível e livre” (ROGER, 2013, p. 58). Esta mesma posição é defendida por outros comentadores como Jair barboza, Jean Lefranc.
[2]          No entanto as obras anteriores são essenciais para a compreensão da obra, como o próprio Schopenhauer atesta no prefacio de O mundo como vontade e representação (SCHOPENHAUER, 2005, p. 24).  Em sua primeira obra Sobre a quadrupla raiz do principio de razão suficiente, Schopenhauer por exemplo pega “emprestado da tradição leibniziana, o principio de razão suficiente ganha em Schopenhauer, uma significação e função novas, de inspiração kantiana. Ele é [...], o principio constitutivo de toda representação. Composto de três instâncias, espaço, tempo e causalidade, é a versão unificada do ‘transendental’ kantiano” (ROGER, 2013, p. 60). Essa divisão é essencial como a ampla compreensão de o mundo como vontade e representação.
[3]          “O mundo enquanto representação está submetido ao principio de razão suficiente (espaço, tempo e causalidade) e, portando, regido por um determinismo rigoroso, que, no entanto, não passa de uma ilusão fenomênica, por oposição à realidade metafísica desse mundo, isto é, a Vontade, incondicionada, uma, indestrutível e livre” (ROGER, 2013, p. 53).
[4]          “A Vontade é a instância fundamental do sistema de Schopenhauer. Corresponde à coisa em si de Kant” (ROGER, 2013, p. 72)
[5]          “A representação é o equivalente do ‘fenômeno’ kantiano. Está submetida às três condições do espaço, do tempo e da causalidade, que dependem do entendimento e formam o principio de razão suficiente” (ROGER, 2013, p. 64).
[6]          “O entendimento é a faculdade da representação. Estruturado pelo princípio de razão suficiente (a tríade: espaço, tempo, causalidade), seu papel é essencialmente perceptivo e pragmático” (ROGER, 2013, p. 21).
[7]          A razão é a faculdade de formar conceitos e de realizar ligações lógicas. No entanto trata-se do exame de representações abstratas. Estas são secundarias, visto que as primarias são aquelas dadas de modo imediato no momento da experiência. As secundarias por sua vez são abstrações das primeiras, não possuem a mesma intuição forte, impassível de erro que a primeira possui. Sendo assim a razão trabalha com representações de representações. Deste modo a razão nunca produz conhecimentos novos, pois o seu papel é o de somente organizar as representações imediatas, que são mais intuitivas (ROGER, 2013, p. 63).
[8]          Uma experiência que parece ter formado esta opinião no jovem Schopenhauer, foi quando o mesmo visitou a escola o instituto de surdos-mudos do abade Sicard em 1803. Narra-nos o filósofo em seu diário de viagem que enquanto a maioria  das instituições de sua épocadestinadas a esta finalidade enfatizavam o ensino da linguagem falada, a escola de Sicard privilegiava a ensino da linguagem de sinais. Esta impressão foi forte para o jovem filósofo, pois ele percebe (embora sem fundamento teórico) que os surdos desta escola, pareciam muito mais alegres, pois utilizavam de uma linguagem que para eles era muito mais natural e portanto não acabada e imposta (SCHOPENHAUER, 2012, p. 121).
[9]          Há aqui uma clara relação entre a filosofia e a biografia de Schopenhauer. O filósofo foi o fruto de um casamento sem amor, movido por interesses entre Heinrich Floris Schopenhauer, um rico comerciante da cidade estado de Dantzig e Joahanna Henriette Trosiener. O pai desde cedo influenciara o filho a “ler o grande mundo do mundo”. O conhecimento adquirido pela experiência de vida era considerado pelo pai como o mais valioso para a carreiro que o mesmo esperava que Schopenhauer seguiria a de comerciante. Observando a tendência do filho para a vida acadêmica Heinriette faz um acordo com o filho de que se o mesmo aceita-se seguir a carreira de comerciante, deixando de lado os estudos eruditos a família realizaria uma grande viajem pela Europa. A mesma ocorre entre 1803-1804. A viajem além de servir para convencer Schopenhauer a seguir os negócios da família, também destinava-se para que o mesmo ganha-se conhecimento de mundo, coisa que Heinriette considerava essencial para o exercício do comercio (SAFRANSKI, 2011, p. 38-67).


 [G1]A questão da memorização

Um comentário:

  1. SOBRE A LEITURA DESSE ARTIGO SOBRE A EDUCAÇÃO EM ARTHUR SCHOPENHAUER, A FINALIDADE SE DA APARTIR DA RELAÇÃO DA EDUCAÇÃO NATURAL E ARTIFICIAL, POR OUTRO LADO AMBAS NÃO POSSUI UM OPOSICÇAO ISSO? MAS É LEVADA A MAS CONSIDERAÇÕES A EDUCAÇÃO NATURAL, POIS POR MEIO DELA É O CONHECER INTUITIVO, O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A MANEIRA MAS EFICAZ DE CONHECER A COISA EM SIM ESQUECIDA POR KANT A VONTADE, MAS NO SUJEITO, A CONTINUAÇÃO DO DESEVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO SE DAR APARTIR DA ABSTRAÇÃO, CONHECIMENTO FORMALDO E MAS COMPLEXO.

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