Schopenhauer e a educação
Ressumo: O artigo possui a proposta de abordar o
tema da educação em Schopenhauer. Levamos em conta as noções de educação
natural e artificial do autor. A primeira conforme o mesmo é entendida como
autônoma e direta baseia-se nas experiências diretas do educando, sem levar em
conta a capacidade abstrativa de pensamento racional. Já a segunda refere-se a
uma forma de conhecimento realizado por intervenção, onde o individuo é
instigado a memorização de conceitos já prontos e acabados. Queremos com isso
apontar para as considerações que o filósofo realiza sobre estes tipos de
educação e como as mesmas podem interagir.
Palavras chave: Educação,
Schopenhauer, intuição, artificialidade e filosofia
Summary: The article has the proposal to address the issue of education
in Schopenhauer. We take into account the natural and artificial notions of
education of the author. The first as it is understood as an autonomous and
direct based on the direct experience of the student, without regard to the
abstractive ability to rational thinking. The second refers to a form of
knowledge held by intervention where the individual is urged to memorize ready
and finished concepts. We want it pointing to the considerations that the
philosopher performs on these types of education and how they can interact.
Keywords: Education, Schopenhauer, intuition, artificiality and
philosophy
O
que se pode falar sobre a educação em Schpenhauer (1788 – 1860)? Diferente de
outros filósofos, como Rousseau, Kant e Comenius que possuem obras inteiras
destinadas ao assunto, Schopenahuer escreveu apenas um pequeno capitulo de Parerga e paraliponema onde analisa o
tema. No entanto ao lermos o capitulo intitulado ‘Sobre a educação’ o filósofo
nos surpreende com uma rica compreensão do tema que parece antecipar a reflexão
sobre a educação expressada no século XX.
O capítulo Sobre a educação está
presente em uma obra do autor que é compreendida pelos seus comentadores como
um complemento ao O mundo como vontade e
como representação obra principal do filósofo. Conforme boa parte dos
comentadores de Schopenhauer, o filósofo possui um pensamento único[1] manifestado em sua obra
mestra. Isso significa que o que há de essencial na filosofia de Schopenhauer
esta presente na referida obra. Sendo assim as obras anteriores[2] ao livro citado são
entendidas como uma introdução ao livro sendo as posteriores, um complemento. Deste
modo as considerações do autor sobre a educação são uma consequência lógica
daquilo que é exposto em sua obra principal. Torna-se então imperativo que
abordemos sobre alguns tópicos de o mundo
como vontade e representação antes de abordarmos o assunto da educação.
A obra aponta para a divisão
fundamental do mundo[3] em Vontade[4] e representação[5]. Tudo o que pode ser
representado é limitado pela minha capacidade de entendimento[6]. Para Kant as essências
não podem ser conhecidas, o que Schopenhauer discorda, pois para ele a essência
do mundo a Vontade pode ser conhecida por meio de uma intuição, que difere da
intelectiva, pois não está presa aos limites da razão[7]. Schopenhauer privilegia
mais as intuições diretas que adquirimos do mundo do que o conhecimento
formulado, por meio de uma racionalidade abstrata, pois a primeira dirige-se
para um conhecimento mais direto da essência do mundo.
Tendo
claro estas informações preliminares podemos começar a analisar o capitulo
sobre a educação. No parágrafo 372 o filosofo realiza uma diferenciação entre a
educação natural e a artificial. A primeira é entendida como aquela em que o
sujeito apreende sozinho onde o conhecimento abstrato forma-se em um segundo
momento. Primeiramente o sujeito vivencia intuições diretas do mundo, para só
depois formar abstrações (conceitos) gerais sobre estas intuições. Assim o
conhecimento que ele possui destes conceitos é total, pois é a totalidade de
todas as intuições que ele vivenciou, “amaradas” pelo próprio. Esta forma de
ensino “autodidata” instiga a reflexão e a solução de problemas, uma vez que
estes são impostos ao sujeito que não possui nenhum auxilio externo. Ele
precisa então solucionar, abstrair, juntando as suas intuições para solucionar
o problema.
As
intuições são consideradas pelo autor como muito mais fortes e importantes[8] do que os conceitos
formados pela abstração. Isso por que é através de uma intuição imediata que se
tem acesso a coisa em si do mundo a Vontade. Desta maneira o conhecimento
intuitivo é mais real, pois possui uma conexão imediata com a essência do
mundo. Algo que não é produzido pelo conhecimento abstrato, que nada mais é do
que representações de representações, sendo então duplamente ilusório. A
representação abstrata é importante, principalmente para o conhecimento
pragmático do mundo. Mas querendo que o educando atinja uma educação ampla é
necessária que aja um acompanhamento no seu desenvolvimento abstrativo, dando
ênfase a este em apenas alguns momentos. Para Schopenhauer em um primeiro
momento deve se dar ênfase ao conhecimento natural, não pode-se iniciar com o
efeito.
A
educação artificial que é definida pelo autor como obliquo, pois trata-se de
uma intervenção onde o educando recebe conceitos abstratos prontos, onde não há
ligações diretas com intuições vivenciadas pelo mesmo e não há o estimulo a
reflexão e solução de problemas, esta forma de educação conforme o filósofo
forma pessoas ingênuas e incapacitadas de encarrar o mundo, pois os conceitos
abstratos muitas vezes não se aplicam ao mundo real (SCHOPENHAUER, 2013, p. 639-640). [G1]
A
educação deve tender ao mundo e não aos conceitos[9]. Os últimos só devem ser
formados em conseguencia das intuições. Para isso é necessário pensar uma
maneira, uma estratégia para educar. Deste de já esta maneira da muito mais
ênfase a qualidade e não na quantidade de conhecimentos. Uma vez que prover com
que o educando espontaneamente tenha e reflita sobre as suas vivencias trata-se
um processo muito mais lento, do que a educação que dá ênfase para o
conhecimento abstrato onde tudo já esta pronto. Devemos tentar entender qual
seria então a sequencia natural de conhecimentos ao qual uma criança deve
apreender. A criança ao possuir apenas alguns conceitos, mas claros e distintos
acostuma-se a claridade, a verdade e não se deixa enganar facilmente por ilusões,
que tentam forçar que a realidade se enquadre nestas ilusões (SCHOPENHAUER,
2013, p. 641-642).
No
entanto o conhecimento abstrato possui o seu papel em todos os momentos na
ideia de educação em Schopenhauer. Para o autor o primeiro contato com o
conhecimento abstrato deve ser de memorização e não de reflexão. O educando não
possui ainda uma capacidade reflexiva abstrata própria. Forçar o educando a
tais reflexões seria danoso para o mesmo, pois ele chegaria a conclusões que
ele mesmo não compreende. Tornando-se assim ingênuos por esperar que as suas
conclusões abstratas devam sempre ser ratificadas na experiência. Para o
filosofo conhecimentos abstratos mais complexos só podem ser inseridos após os
dezesseis anos de idade. A criança deve se ocupar apenas de ciências concretas
onde não há erros, como a matemática. Aos poucos ela deve ascender a formas de
conhecimento abstratas mais reflexivas, como a filosofia por exemplo. Formas
estas que dependem de uma razão mais apurada, que por um lado necessitam de um
conhecimento fortemente enraizado no mundo, para que não seja uma mera
abstração do mesmo, como também precisa da capacidade abstrativa para o seu
exercício.
Para
Schoepnhauer a juventude é o momento (na educação artificial) onde deve-se
trabalhar principalmente a memoria, pois esta é mais viva e esta em
desenvolvimento. Contudo o docente deve selecionar o que deve ser memorizado.
Que são apenas aqueles conhecimentos abstratos exatos. Este é o papel da
educação abstrativa na juventude. Por outro lado a educação natural e autônoma
possui o seu papel pragmático.
Chegando
as considerações finais, a maturidade intelectual ocorre conforme o filósofo
quando o educando desenvolve as suas capacidades naturais (educação natural) em
plena harmonia com o seu desenvolvimento abstrativo (educação artificial).
Desta maneira ambas se corrigem. É neste momento que a reflexão abstrata mais
complexa ganha o seu espaço. Ele não torna-se cego, pois possui a razão para
orienta-lo. A razão afasta a ideia de que as suas intuições imediatas são
sempre absolutas, ela ‘abre caminho para novas possibilidades’. O educando
deste modo também não torna-se ingênuo, pois não espera que as suas reflexões
sempre se enquadrem na realidade.
Bibliografia
BARBOZA,
Jair. A decifração do enigma do mundo,
São Paulo: Editora moderna, 1997.
LEFRANC,
Jean. Compreender Schopenhauer. Petrópolis: Vozes, 2005.
ROGER, Alain. Vocabulário
de Schopenhauer. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
SAFRANSKI,
Rüdiger, Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. São Paulo: Geração
editorial, 2012.
SCHOPENHAUER,
Arthur. O mundo como vontade e representação. São Paulo: UNESP, 2005;
_______.
Diarios de Viaje. Madrid: Trotta,
2012;
_______.
Parerga y paralipómena II. Madrid:
Trotta, 2013.
[1] Com a ideia de um pensamento único
estamos expressando a reflexão de que há um elemento chave que desdobra todo o
pensamento do autor. Segundo Roger “Essa chave nada mais é senão a célebre
distinção kantiana entre o fenômeno e a coisa em si é agora determinada como
‘Vontade’, uma universal, indestrutível e livre” (ROGER, 2013, p. 58). Esta
mesma posição é defendida por outros comentadores como Jair barboza, Jean
Lefranc.
[2] No entanto as obras anteriores são
essenciais para a compreensão da obra, como o próprio Schopenhauer atesta no
prefacio de O mundo como vontade e representação (SCHOPENHAUER, 2005, p.
24). Em sua primeira obra Sobre a
quadrupla raiz do principio de razão suficiente, Schopenhauer por exemplo pega
“emprestado da tradição leibniziana, o principio de razão suficiente ganha em
Schopenhauer, uma significação e função novas, de inspiração kantiana. Ele é
[...], o principio constitutivo de toda representação. Composto de três
instâncias, espaço, tempo e causalidade, é a versão unificada do
‘transendental’ kantiano” (ROGER, 2013, p. 60). Essa divisão é essencial como a
ampla compreensão de o mundo como vontade e representação.
[3] “O mundo enquanto representação está
submetido ao principio de razão suficiente (espaço, tempo e causalidade) e,
portando, regido por um determinismo rigoroso, que, no entanto, não passa de
uma ilusão fenomênica, por oposição à realidade metafísica desse mundo, isto é,
a Vontade, incondicionada, uma, indestrutível e livre” (ROGER, 2013, p. 53).
[4] “A Vontade é a instância fundamental do
sistema de Schopenhauer. Corresponde à coisa em si de Kant” (ROGER, 2013, p.
72)
[5] “A representação é o equivalente do
‘fenômeno’ kantiano. Está submetida às três condições do espaço, do tempo e da
causalidade, que dependem do entendimento e formam o principio de razão
suficiente” (ROGER, 2013, p. 64).
[6] “O entendimento é a faculdade da representação.
Estruturado pelo princípio de razão suficiente (a tríade: espaço, tempo,
causalidade), seu papel é essencialmente perceptivo e pragmático” (ROGER, 2013,
p. 21).
[7] A razão é a faculdade de formar
conceitos e de realizar ligações lógicas. No entanto trata-se do exame de
representações abstratas. Estas são secundarias, visto que as primarias são
aquelas dadas de modo imediato no momento da experiência. As secundarias por
sua vez são abstrações das primeiras, não possuem a mesma intuição forte, impassível
de erro que a primeira possui. Sendo assim a razão trabalha com representações
de representações. Deste modo a razão nunca produz conhecimentos novos, pois o
seu papel é o de somente organizar as representações imediatas, que são mais
intuitivas (ROGER, 2013, p. 63).
[8] Uma experiência que parece ter formado
esta opinião no jovem Schopenhauer, foi quando o mesmo visitou a escola o
instituto de surdos-mudos do abade Sicard em 1803. Narra-nos o filósofo em seu
diário de viagem que enquanto a maioria das
instituições de sua épocadestinadas a esta finalidade enfatizavam o ensino da
linguagem falada, a escola de Sicard privilegiava a ensino da linguagem de
sinais. Esta impressão foi forte para o jovem filósofo, pois ele percebe
(embora sem fundamento teórico) que os surdos desta escola, pareciam muito mais
alegres, pois utilizavam de uma linguagem que para eles era muito mais natural
e portanto não acabada e imposta (SCHOPENHAUER, 2012, p. 121).
[9] Há aqui uma clara relação entre a
filosofia e a biografia de Schopenhauer. O filósofo foi o fruto de um casamento
sem amor, movido por interesses entre Heinrich Floris Schopenhauer, um rico
comerciante da cidade estado de Dantzig e Joahanna Henriette Trosiener. O pai desde cedo influenciara o filho
a “ler o grande mundo do mundo”. O conhecimento adquirido pela experiência de
vida era considerado pelo pai como o mais valioso para a carreiro que o mesmo
esperava que Schopenhauer seguiria a de comerciante. Observando a tendência do
filho para a vida acadêmica Heinriette faz um acordo com o filho de que se o
mesmo aceita-se seguir a carreira de comerciante, deixando de lado os estudos
eruditos a família realizaria uma grande viajem pela Europa. A mesma ocorre
entre 1803-1804. A viajem além de servir para convencer Schopenhauer a seguir
os negócios da família, também destinava-se para que o mesmo ganha-se
conhecimento de mundo, coisa que Heinriette considerava essencial para o
exercício do comercio (SAFRANSKI, 2011, p. 38-67).
[G1]A
questão da memorização
SOBRE A LEITURA DESSE ARTIGO SOBRE A EDUCAÇÃO EM ARTHUR SCHOPENHAUER, A FINALIDADE SE DA APARTIR DA RELAÇÃO DA EDUCAÇÃO NATURAL E ARTIFICIAL, POR OUTRO LADO AMBAS NÃO POSSUI UM OPOSICÇAO ISSO? MAS É LEVADA A MAS CONSIDERAÇÕES A EDUCAÇÃO NATURAL, POIS POR MEIO DELA É O CONHECER INTUITIVO, O CONHECIMENTO DA REALIDADE E A MANEIRA MAS EFICAZ DE CONHECER A COISA EM SIM ESQUECIDA POR KANT A VONTADE, MAS NO SUJEITO, A CONTINUAÇÃO DO DESEVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO SE DAR APARTIR DA ABSTRAÇÃO, CONHECIMENTO FORMALDO E MAS COMPLEXO.
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